FEV a NOV 2025 · OFICINAS DO INACONTECÍVEL

 ATLAS COLETIVO

inventário de uma paisagem




OFICINAS DO INACONTECÍVEL


As Oficinas do Inacontecível surgiram da parceria do Terra.Corpo com o projeto de criação artística Atlas Coletivo - Inventário de uma paisagem, enquanto práticas coletivas de literacia e de cidadania da paisagem, com uma curadoria pedagógica de intervenção artística participada com a comunidade.

O Terra.Corpo existe desde 2007 enquanto espaço de experimentação, educação e psicoterapia pela arte que privilegia, sobretudo, a dança e a poesia enquanto linguagens de encontro expressivo e criativo entre este nosso corpo humano e este corpo maior que é a nossa Terra. O Terra.Corpo tem por semente fundadora o princípio de que o corpo é – por si só e em si próprio  - uma heterotipia, um mundo dentro de mundos outros, móvel, aberto, múltiplo, plural, que perturba e questiona todas as dimensões da existência subjetiva enquanto força de transformação, onde quer que estejamos. Nesse sentido, é uma caraterística essencial do Terra.Corpo trazer as suas práticas para a rua, trabalhar ao ar livre, em itinerância e placemaking, sobre os espaços e os elementos que os compõem, onde a paisagem é lugar e sujeito de co-invenção e de reciprocidade.

Partindo da nossa qualidade e condição de terra-corpo, as Oficinas do Inacontecível construiram-se como experiências geradoras de uma poética de proximidade e de intimidade com os lugares vivenciados, através das quais foram criados registos existenciais e experimentais com a presença imanente dos espaços, das pessoas e das suas histórias. Tendo como elementos criativos deflagradores, o lugar, palavras motrizes e objetos assintomáticos, estas oficinas foram intervenções performativas em que os participantes foram interpelados a sentir, reconhecer, pertencer, habitar e expressar a paisagem pelo movimento e pela escrita livres, enquanto linguagens metafóricas do indizível, do invisível e do sensível, de verdadeiro embodiment do mundo.

Acontecer é sobrevir, decorrer, existir, sendo que a palavra e o gesto são matérias realizadoras de qualquer acontecimento. O inacontecível é assim um neologismo criado para descrever a infinita possibilidade de tudo o que está por acontecer, em que nós próprios somos simultaneamente, memória, arquivo e ponto de fuga da (des)continuidade temporal: vestígios do que não aconteceu e criadores de porvir. Para tal, convocámos uma geopoética do corpo vivido in situ, onde estar-ser-pertencer-participar são a cronologia de um acontecimento, reconstruido na polifonia das arqueologias pessoais e da obra aberta que é cada encontro com a paisagem.

As Oficinas do Inacontecível aconteceram em três momentos e lugares distintos, ao longo do território que acompanharia a trajetória inacontecida do canal fluvial Tejo-Sado. A primeira Oficina do Inacontecível, realizou-se no Pinhal das Areias, em Alcochete, onde experimentámos diferentes motivações e dispositivos criativos em que o corpo foi chamado a interpelar a paisagem e a paisagem foi convidada a atravessar o corpo. Através do movimento e da escrita rizomática, fomos ao encontro do corpo devorador e do corpo dador de paisagem, introduzindo o espelho como primeiro objeto assintomático. Implantado no corpo e na paisagem, o espelho apareceu enquanto objeto capaz de vencer a opacidade do corpo-sujeito e que, ao apontar para a paisagem revela, ao mesmo tempo, um reflexo de si próprio. O sentir e a fabulação foram vivências de contiguidade com o meio, a partir das quais cada um se manifestou e expressou enquanto lugar em que o exterior se espelha e transparece, numa geografia nómada e ao mesmo tempo, de constante presença espacial.

A segunda Oficina do Inacontecível, deu continuidade à nossa travessia por terras do canal inacontecido, desta vez na Herdade de Rio Frio. Prosseguimos a navegação com as linhas de força do movimento e da palavra, enquanto estado de presença, de acontecimento, de escuta e de escrita na paisagem. O corpo, acompanhado de mais um objecto assintomático de experimentação e investigação criativa, foi convidado a habitar as arquiteturas perecíveis e as ruínas que moram neste sítio, re-conhecendo e re-construindo os diversos espaços de desaparição, bem como as sobrevidas que ocupam este lugar e os seus vestígios de memória coletiva. A fabulação e a poética ficcional foram as matérias primas de geografia criativa pessoal e os tirantes de múltiplas histórias extemporâneas.

A terceira e última Oficina do Inacontecível, viajou até uma paisagem de elevadas discrepâncias e tensões, num cenário singular entre o Estuário do Sado e a zona industrial da Mitrena. Experimentando e explorando todo o potencial narrativo e poético deste espaço, inventámos e reconfigurámos novos enquadramentos do olhar através do desvelamento da paisagem que ocorre nos actos-parados e nas entre-formas do invisível. A moldura surgiu como aparelho fotográfico e cinematográfico, enquanto superfície profunda de auscultação e de criação de novas possibilidades de relação do corpo e da subjetividade com a paisagem, de destacar micropaisagens da paisagem. A palavra, foi imagem e lente  multiplicadora de diferentes perspectivas sobre um lugar situado entre as nossas construções de passagem, cruzamento  e encontro de histórias e territórios, pessoais e coletivos.

Os trabalhos apresentados na peça final, resultam do reconhecimento da importância de abrir o processo de criação artística do Atlas Coletivo à comunidade, abrindo a possibilidade de integrar neste os vários desafios feitos aos participantes nas Oficinas do Inacontecível e alguns dos seus produtos materializáveis, convidando-os a estarem presentes neste livro de artista. Tratam-se não só de obras realizadas durante as oficinas, como também projetos resultantes do incentivo a regressar aos lugares intervencionados e a criar sobre eles, sensibilizando para, a par das práxis criativas coletivas, a importância das práticas de solitude na construção de uma relação de escuta e diálogo " a sós" com a paisagem. Tratando-se apenas de uma parte dos trabalhos criados pelos participantes, os restantes estarão presentes na exposição de todo o processo de criação do Atlas Coletivo – Inventário de uma paisagem.

As Oficinas do Inacontecível revelaram ser experiências partilhadas que abriram novas possibilidades de pensar uma geografia de presença e de encontro na paisagem, implicando todos os sentidos na apropriação dos espaços, nas deslocações do olhar e nas viagens criativas exploradas como mote de vivência do real, integrando outras sensibilidades que conferiram tonalidade e tridimensionalidade afetiva aos lugares. Ao longo destas oficinas, procurámos sair do discurso interpretativo visual e do enquadramento pictórico da paisagem, indo para além da observação, da contemplação e da designação, convidando as pessoas a experimentar o seu corpo como campo de criação e de interrogação criativa e estética, desafiando-as a transformar o olhar e o sentir em ação, a incorporar o meio, chamando-as para uma investigação somática e artística da paisagem. Auscultando a meteorologia íntima dos lugares vividos, onde as pessoas foram pontos notáveis das paisagem coabitadas, tudo foi construído a partir de práticas de campo artísticas e site-specific , através do que foi vivenciado, por dentro de uma estética de afetação – de afetividade, de afetar e de deixar-se afetar pela experiência e pelos acontecimentos criados.



Saiba mais aqui sobre o Projeto ATLAS COLETIVO - INVENTÁRIO DE UMA PAISAGEM

Equipa artística: Fernando Brito, Ema Inácio, Humberto Brito, Sérgio Godinho

Entidade Organizadora: Associação Projetor Verde

Parcerias e apoios: Terra Corpo, Museu da Paisagem, Arquivo Portos Lisboa, Setúbal e Sesimbra, Bibliotecas do Exército, Grupo Amorim, Kunstworks Fund, Casa d’ Avenida, Cinema Vitória Azeitonense, Câmara Municipal de Alcochete e Câmara Municipal de Setúbal. 

https://www.instagram.com/atlas_coletivo/

https://www.facebook.com/AtlasColetivoInventariodeumapaisagem



Entidade Financiadora



Fotografia: Ema Inácio



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